

Segundo Hesíodo, em sua Teogonia, o sacrifício exemplar prevê a partilha do alimento entre deuses e homens. Numa cidade de ouro, homens e deuses viviam e comiam juntos. Mas Prometeu, que estava encarregado de preparar o grande boi destinado ao banquete, tentou enganar Zeus. Separou a melhor parte do boi para os homens. Zeus, encolerizado, privou os homens do fogo. Doravante, os mortais repeririam ritualmente, sobre os altares, a insolência de Prometeu. Queimavam-se para os deuses os ossos das vítimas, nus e cobertos de banha, e guardarvam para si a carne vermelha, a cabeça, os pés e as tripas.
Libação - ato de derramar vinho na terra para os deuses. Assume um sentido macabro na maldição que o acompanha: se alguém infringir o pacto firmado, é jurado que os miolos do ofertante e de seus filhos se esparramem pelo chão, como a bebida que nele se fez correr.
Os rituais de sacrifícios são realizados em diversas ocasiões - para agradecer, lisongear, garantir favores, conjurar cóleras, antes e depois de uma batalha, para obter uma aliança privilegiada ou afastar um castigo. às vezes, nem os sacrifícios mais ricos podem convencer um deus irado com o erro de algum mortal. Há faltas que os deuses estimam inexplicáveis e sancionam um castigo.
Poder-se-ia esperar que, quando se deve selar um acordo inviolável entre mortais, a comensalidade primasse sobre as oferendas. Bem ao contrário, os sacrificantes não tocam nas carnes das vítimas degoladas. Este rito não tem nenhuma conotação alimentar, mas se torna o suporte de uma ameaça de violência (assassina) que se desencadeará, se o compromisso for rompido.
Nos pactos entre os mortais, os deuses são invocados não só na qualidade de testemunhas, mas também como responsáveis do eventual acerto de contas. O destinatário de uma imolação é solicitado e interpelado pelos sacrificantes; mas não se manifestam, necessariamente, por sinais visíveis de suas reações (aceitação ou recusa). Todavia, um imortal pode assistir, física e pessoalmente, à cerimônia a ele dedicada. Este é o caso de Atena na Odisséia, quando acompanha Telêmaco ao solar de Nestor, para indagar o destino do pai. A deusa, sob os traços de um sadio conselheiro (Mentor), tomou parte num sacrifício por Posseidon. Ela própria dirigiu as operações do sacrifício de seu tio, antes de se despedir diante do espanto de todos.
No mundo homérico, a oferenda completa aos deuses, sem restos para os homens, é uma situação pouco corrente. Na Ilíada, os animais são quiemados inteiros na fogueira de Pátroclo.
Por ocasião da devolução de sua filha Criseida, Crises (sacerdote de Apolo) dedica-lhe um sacrifício. Os assistentes lavam as mãos e pegam um punhado de cevada; reúnem-se também os aminaos em torno do altar. Espalha-se a cevada sobre a cabeça dos bois; os focinhos são erguidos e os animais são degolados. Os ossos são separados das coxas e cobertos com gordura dos dois lados, ao seu redor, são dispostos os pedaços de carne crua. Assim é preparada a parte do deus que é oferecida a Apolo, sob a forma de emanações perfumadas. O conjunto de ossos, gordura e carne crua é queimado sobre as achas e sobre elas é derramado o vinho de reflexos escuros. Depois de ofereceremaos deuses o alimento etéreo; os sacrificantes pensam em si. Depois de queimados os ossos das coxas, come-se a fressura (coração, fígado, pulmões etc.), o resto é picado em pedaços pequenos e, em seguida, enfiados nos espetos e assados. Assim que expulsaram a sede eo apetite, os homens servem e distribuem o vinho das libações e cada um oferece vinho a Apolo. Festejam, assim, o dia todo, enquanto o deus homenageado regozija-se.